Papai, questão muito complexa com a qual terá de lidar é a sensibilidade de sua gravidinha.
Sabemos que as mulheres, em condições normais de temperatura e pressão, são detentoras de uma estranha instabilidade emocional, que quase sempre surge para iniciar ou estimular as discussões mais estapafúrdias. Todavia, se pensa que anos de relacionamento fizeram do senhor um tipo de especialista em crises, capaz de tirar o pé e abstrair de modo a não se aborrecer de verdade com todas as injúrias que lhe são proferidas, cuidado! Durante a gestação o nível é outro...
Pense: sua mulher, em nove meses, viverá dores constantes em locais do corpo que nem sabia que poderiam doer; verá uma barriga enorme e pesada crescer e tomar mais espaço, sem a menor piedade, dia após dia, e com ela verá sobrar uma das pouquissimas coisas que elas odeiam ganhar, quilos; terá sérios problemas para dormir já que nem sempre a melhor posição na cama será também a melhor para o bebêzinho genioso que não exitará em demonstrar sua insatisfação com combos de Muay Thai.
Agora responda: não seria uma sacanagem cruel se você passasse ileso por tudo isso, esbanjando vitalidade e alegria na frente da futura mamãe?
"A natureza é sábia" e Papai do céu um grande gozador. Pois se o equilibrio deve reinar em todos os cantos da criação, não poderia ser diferente na relação homem/mulher na gravidez. Se fisicamente as dores não podem ser divididas, psicologicamente a história é outra, e o marido, que num primeiro momento era visto apenas como garanhão reprodutor, passa a desempenhar um papel fundamental no drama, embora menos nobre do ponto de vista animal, sendo este o de bode expiatório!
Sim, amigo bodão, você está aí pra apanhar. Orgulhe-se, pois a saúde da mulher que ama e do seu guri dependem disso. Imagine-se como o sparring do Anderson Silva, e que a vitória no octógono também será sua... no seu íntimo.
Assim, não se assuste com o que vier. Por mais que você se esforce e cubra sua gatinha com todos os mimos do mundo, de café na cama à massagem no fim da noite, ela ainda vai te premiar com um: "Você não se importa comigo e nem com a nossa filha!" Eu sei. Será difícil segurar o palavrão mas faça, ou enfie a cabeça no forno do fogão e grite lá dentro. Vale até arrumar seu próprio bode. No meu caso foi o Flamengo. Tornei-me um daqueles torcedores malucos que gritam as intruções para o time através da televisão e conversam com um auxiliar técnico invisível quando a situação está sinistra.
Faça qualquer coisa, mas em nenhuma hipótese ouse reagir. Essa regra dourada, caríssimo, o salvará de viver o "fundo do poço" obstétrico, um sentimento tão esmagador que nem o mais radical dos niilistas conseguiria ignorar: a culpa paterna.
Não é exagero, acredite. Ainda que seu esporro esteja pautado num argumento de aço, digno de aplausos no STF, ele sempre soará errado, até mesmo pra você. A mecânica é simples; se for canalha o suficiente pra brigar com uma grávida é poque não deve ter razão no que diz. E então as consequências do seu gesto começam a pipocar. Pode ser que ela feche os olhos, respire de maneira forte e irregular, e solte um "tô tonta". Sua reação será imediata. Começará a se manifestar como um sopro gelado que percorre a espinha até alcançar o cóccix, e lá, ao se alojar, irá gerar um fortíssimo espasmo muscular, situação esta popularmente conhecida como..."não passa nem agulha".
Do medo à tal culpa é coisa de segundos. Quem, senão você, será responsabilizado por qualquer coisa que aconteça? Tentará então correr para desfazer a cena e, dependendo do caso, poderá ficar bem ridículo gaguejando, chorando, rezando, pedindo desculpas, tudo ao mesmo tempo. É claro que a tempestade vai passar, no entanto, por muitos dias a zoeira continuará na sua cabeça, e se, uma semana depois, a pressão da sua amada der um pequeno saltinho, é provável que se pegue coçando o cavanhaque e lembrando do quanto foi idiota.
Mas pode ser que ela não passe mal. Em vez disso, poderá ficar em silêncio ouvindo tudo o que tem a dizer, dando a nítida impressão de que entende e concorda com sua visão. Ah, papai, segure os rojões! Assim que terminar seu sermão um beiçinho inofensivo irá aparecer. Nele, um tremor suave será o sinal de que o perigo se avizinha, como naquela cena de Jurassic Park. Você sente a tensão no ar e aguarda a chegada do terrível Tiranossauro, todavia, o que vem no seu lugar é...uma coelhinha fofinha de olhos enormes e lacrimejantes!
_ Deeeeeeeus! Que monstro eu sou!!! Como pude fazer uma coisinha tão cutie cutie chorar?!?!
Essa é a primeira fase. Automaticamente será compelido à abraçá-la, e novamente se verá assumindo que estava errado desde o ínicio, só que desta vez usando aquela infame vozinha rídicula dos apaixonados. Devidamente agarrado pelo sentimentalismo da ocasião, a fase dois começará e nela sua linda aproveitará o ensejo para abrir o verbo, lembrando a você tudo aquilo pelo que está passando nos últimos meses, coisas que você, pai exemplar, está cansado de saber, mas que, narrado entre lágrimas e nariz fanhoso, consegue estraçalhar seu coração em 315 pedaçinhos.
É, papai, não há saída. Se ela tem o barrigão você tem que ter saquinho. Escreva críticas terríveis sobre todos os filmes que assitir; xingue e dê dedo pra todo mundo no trânsito; finja que deu um topão na calçada e berre um "patcha quiuspariu" gostoso. Se vira, mas segure a onda com a sua gravidinha. Se o senhor deu tanta sorte quanto eu, ela é, simplesmente, a mulher da sua vida. Ao longo de anos lhe proporcionou momentos de intensa alegria e prazer. Aliás, ela é e sempre será sua alegria e seu prazer. De tanto amor inventaram juntos uma nova vida, um presente de Deus para ambos. Pois justa é a divisão da responsabilidade no cultivo e guarda desta dádiva. E mais, imprescindível é o cultivo e guarda deste lindo amor.
Por isso, não esquente. Dê bom dia com um sorriso, sirva o cafézinho na cama, e seja feliz!
Preciso parar por aqui, hora da massagem...
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