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sábado, 11 de fevereiro de 2012

O nascimento

por papaizuco


Parte 1 - O caso da cacatua.

Nos últimos meses da nossa gravidez, toda vez que pensava no dia do parto, uma súplica saltava da minha cabeça de imediato:

_ Por favor, Deus, não me deixe fazer algo idiota.

Conhecendo-me como ninguém, tinha a certeza de que a lista de temíveis vinicices era imensa e criativa. De desaprender a dirigir no percurso para o hospital até a clássica desmaiada na hora H...tudo era possível. Acompanhar o nascimento do bebê errado? Também era uma hipótese. Não riam. Esse medo todo não era uma nóia injustificada. De fato, sou meio atrapalhado, e, se numa típica situação de tensão onde a adrenalina corre a mil pelo corpo a probabilidade de erro crítico já é altíssima, imagine no grande dia.

Eu não queria falhar. Não queria deixar de estar ao lado do meu amor quando nossa bebê chegasse. Nós passamos por tantas coisas juntos desde que nos conhecemos... e sempre sempre encaramos tudo de mãos dadas. Lutando um pelo outro. Doando força e carinho. Os nove meses à espera de Valentina foram tão lindos, e ao mesmo tempo tão difíceis. No entanto haviamos chegado àquele dia vitoriosos muito graças ao nosso companheirismo. Não seria agora que eu estragaria tudo...né?

Quando Ana estava na maca rumando para a sala de parto, lembro de ter respirado com um certo alivio, pelo menos por conta de não ter cometido nenhuma gafe. Parecia que tudo estava correndo conforme o plano e que bastaria segurar na mão dela para vivermos o momento mais bonito das nossas vidas, igualzinho igualzinho acontece no cinema. Mas...

_Papai, o senhor vai encontrar com a mãezinha depois. Primeiro terá que comprar a roupa e trocar no vestiário. Daí então ficará aguardando na sala de espera até ser chamado?

_Hein? Comprar roupa?! Mas onde???

_É lá na recepção no primeiro andar...mas olha, corre!

Jesus! Sai na batida do bonde sem freio descendo as escadas do hospital. Àquela altura, nem lembrava do meu joelho ferrado...eu só não podia falhar. Comprei a tal roupa e subi novamente os lances de escada num fôlego só, e passei a procurar a sala de espera e o vestiário. Não foi difícil. Mais uma vez respirei tranquilo. Não havia passado nem 5 minutos..."eu vou conseguir, é só apertar a campainha".

Não preciso dizer que ninguém atendeu a porcaria da campainha, né? Eu passava a mão na testa e olhava para os lado buscando algum socorro, mas era incrível! Justamente nessa hora o lugar decidiu virar um deserto! Avaliei minhas opções:

1) Chorar feito uma moça;

2) Gritar feito uma moça;

3) Sair apertando tudo o que era campainha pra ver se alguém me ajudava.

Ok...a 3 era mais digna. Graças a Deus foi de primeira. Uma enfermeira gente boa apareceu pra me dizer que realmente havia um defeito naquela outra campainha, mas que já abriria a porta.

Entrei no vestiário louco! Minha troca foi um autêntico pit stop. Antes de sair dei uma olhadinha num espelhinho pra ver como ficava de médico. "Sabia, George Clooney".

Para minha surpresa, disseram-me que ainda não poderia ir para a sala de cirurgia. Fiquei feliz com isso...afinal, precisava relaxar um pouco antes de ver Ana. Eu tinha que ter olhos tranquilos e confiantes para ela. Assim, sentei naquela salinha agradável. Havia um balcão com coisinnhas pra comer, a cafeteira tradicional, uma tv, revista e jornais, e claro...médicos a dar com o pau.

Não demorou nada para perceber que abstrair seria impossível. Tentei de tudo...olhar para o chão, ler, ver televisão, entretanto nada era capaz de baixar a adrenalina. Ao contrário, piorava! Por exemplo: na tv passava Patati e Patata (aliás, foi quando descobri que eles tinham um programa). Aqueles palhaços esganiçados...aquele cenário colorido...nossa!! Me dava uma vontade louca de dar com a cabeça na parede!!!

Foi quando apareceu...a Cacatua.

Um dos tais médicos chegou e já foi atraindo a atenção de todos. Parecia ser um sujeito legal para se bater papo tomando cerveja...cheio de histórias e brincadeiras. Conversou com todo mundo ali sobre todos os assuntos da pauta do dia. Eu o olhava sem acreditar. Como ele conseguia ficar tranquilo antes de ajudar alguém a parir? Aos poucos aquela simpatia começou a incomodar, e eu gritava por dentro: "Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!"

Quando parecia que os assuntos tinham se esgotado, o danado me saiu com a seguinte pérola:

_Rapaz, ontem apareceu uma cacatua lá em casa.

Aquilo me deu um ódio inexplicável!!! Como?!?! Eu estava a instantes de viver o momento mais lindo da minha vida e um cara me fica falando de cacatuas?!?! Por que ele não falava sobre o amor incondicional? Sobre o valor da vida?! Sobre as belezas de ser pai?!? Sobre a mágica de ver uma criança chegar no mundo??

Não!!!!!!! Cacatua, não!!!!!

Levantei e perguntei para uma enfermeira se já estava na hora...se não esqueceram de mim, e ela me pediu para aguardar só mais um pouco na salinha.

Não teve jeito. Voltei e, por mais que tenha cantarolado alguma bobagem, as palavras do doutor natureza invadiam meus ouvidos. Contou então:

_ Mas veja, só. A bichinha era linda. Branquinha. Educada. Todo mundo ficou doido nela. Minha filha, então...Ela me pediu pra ficar com a bichinha, mas eu disse que só se o dono não aparecesse.

De repente, a raiva virou um riso disfarçado. Fiquei pensando na situação toda, em toda a correria, em todo o nevosismo para nada dar errado...e tudo acabava assim, num papo descontraido entre médicos sobre um piriquito albino metido a besta.

Paciência e calma. Talvez aquela fosse uma última lição de Deus para mim antes da chegada do meu bebê. Talvez fosse Ele me dizendo para reconhecer definitivamente que o mundo não é meu. Que as coisas, de vez em quando, fogem mesmo do controle, mas que não preciso me desesperar por isso. A hora chegaria quando tivesse de chegar, e tudo correria bem, lá fora e dentro de mim, se eu mantivesse a fé, leveza e bom humor.

Ainda pude ouvir o doutor natureza dizer:

_Bem, não tinha jeito, né? O rapaz era mesmo o dono da cacatua. Nós devolvemos, mas minha filha ficou triste demais.

_Tadinha. Dá uma pra ela de aniversário.

_Nada. Saimos na mesma tarde pra comprar uma igualzinha. Ela ficou radiante.

Sorri. Poucos minutos depois vieram me chamar. Nossa hora havia chegado.


Para Valentina


Por Mamãe

Filha, desde o dia que chegamos em casa do hospital até hoje muita coisa já se passou. No início você era tão pequena, sua cabeça cabia em minha mão. Você dormia bastante, mas eu ficava ansiosa pelo momento em que você abria os olhinhos e os mirava em minha direção, um olhar tão penetrante... eu imaginava o que você estava pensando... você sabia que era eu a sua mãe? Te abracei, cheirei, beijei...muito. E cada vez mais. Dei seu primeiro banho, te alimentei, te cuidei, fiz carinho. Mas não vou te esconder nada. Também foi muito difícil, chorei e fraquejei. Mas não me senti sozinha, seu pai esteve em todos os momentos ao nosso lado. Me dando força, me ajudando, tornando as coisas mais fáceis. Vou te dizer filha, não poderia ter escolhido um pai melhor pra você.
Você era muito dependente de nós dois. Passava os dias no colo. Não gostava do seu berço, do seu carrinho nem da caminha dos papais. Era viciada mesmo em colo. Ouvimos muita coisa, que te acostumamos mal, que todo aquele cansaço que era tão visível pras outras pessoas era em função disso e que aquilo não era normal. Até tentamos te tirar esse vício, mas a verdade era que não incomodava. Cansava, nos deixava acabados no final do dia, mas era prazeroso. E ainda tinha a satisfação de ver como você se acalmava e ficava feliz quando estava em contato com nosso cheiro, nosso calor.
Mês a mês o cansaço ia diminuindo, seus horários se regulavam mais e conseguíamos te curtir melhor. Você também já ficava mais tempo acordada e podíamos fazer várias coisas juntos...passear, brincar... Mas continuava amando um colinho. Até o dia que vc sentou... Mamãe tinha acabado de te dar um banho e estava te segurando sentada e penteando seu cabelo. Mas eu sentia que você não precisava das minhas mãos te segurando. E eu soltei. E você ficou. Filha, você estava se tornando uma mocinha!! Mostrei pro papai e ele ficou muito orgulhoso. Você tinha 4 meses e meio. Agora que estava vendo o mundo de cima, de outro ângulo, não queria mais saber de ficar deitada. Ficava sentadinha brincando com os brinquedinhos (a juju, a tatá, a babu - sua preferida!). Tudo que vê vai pra boca. Você quer provar e sentir tudo. Adora andar de carro. Mamãe te pega no colo e vamos sentadas na janela. Vc adora sentir o vento fazer cosquinha no seu rosto. E, filha, você colca a linguinha pra fora pra provar o vento.
Estamos indo muito bem. Você nasceu pequenininha, mas cresceu bastante. Engordou e igualou o peso das crianças que nascem com 3,5kg. Que vitória filha! A mamãe passou por muitas dificuldades, mas nunca desistiu de te alimentar com o leite dela. E isso tem nos ajudado muito. Você acredita que nunca ficou doente? Nunca teve um resfriado? Nunca teve nada filha. Nunca teve nem febre. Nem as vacinas ingratas te fizeram mal. Estamos fortes, até não ter mais leite.
Quando está em nosso colo levanta as mãozinhas e fica passando pelo nosso rosto, como se quisesse fazer carinho. É tão gostoso! Às vezes segura nosso rosto com as duas mãos e faz força pra levá-lo até o seu... quer abraço... Você também adora brincar com o papai, vocês riem muito juntos! Papai faz muita bagunça, você adora! Quando está no colo de outra pessoa e nos vê, sorri e levanta os bracinhos pra gente te pegar.  
Quando está com sono chora até a mamãe te pegar e colocar pra mamar... na mesma hora revira os olhinhos e dorme. Você não é boba filha, adora um carinho.
Hoje você está com 6 meses e 10 dias. Enquanto eu escrevo você está no chão com seus amiguinhos de brinquedo ensaiando engatinhar e conversando muito. Não tem medo, está sentada e se joga pra pegar coisas que estão mais longe... quando cai numa posição ingrata da qual não consegue sair pede ajuda. Toda hora, entre um brinquedo e outro, você olha pra cima e nos procura... aí olhamos de volta e soltamos um beijo. Você fica tão feliz e dá gargalhadas! Quanda cansa de brincar levanta os bracinhos e resmunga como quem diz: "Mamãe, Papai, me tirem daqui, cansei!" Filha, como é bom ter você aqui! Aprendemos muito com sua chegada e nos derretemos com cada nova conquista sua... Filha, olha bem pra você e diz se não é a bebê mais linda desse mundo!!?? Te amamos!!




Relato de parto


Bem, depois de contar como descobrimos a gravidez ( parte I e parte II) e como vivemos intensamente esse período (A Gravidez), vamos falar um pouco sobre o parto...

Estávamos nas últimas semanas e eu estava com uma pulga atrás da orelha... as últimas ultras vinham dando uma diferença de quase 3 semanas na idade gestacional do bebê (por exemplo: eu estava com 35 semanas e a ultra acusava que não, que eu estava com 32 pra 33 semanas). Liguei para a médica e ela nos acalmou, dizendo que isso era normal, que havia mesmo uma margem de erro. Isso não entrava na minha cabeça. Todos repetiam todo o tempo as palavras da médica e diziam que era paranóia minha, coisas de mãe de primeira viagem aflita e preocupada. Inclusive o marido. Por fora tentava me acalmar e seguir calma, por dentro era a tensão em pessoa.

Pois bem. Fizemos a próxima, com 36 semanas. De novo a mesma coisa...o bebê havia desenvolvido pouco. Ela (a médica) analisou a ultra, disse que estava tudo bem e que não havia nada de errado, nossa bebê estava com peso e medida dentro do esperado. Mas de fato ela tinha dado uma parada no crescimento. Além disso o líquido amniótico estava no limite. Então ela na mesma hora conseguiu uma vaga imediata pra fazermos uma nova ultra. Lá fomos nós, aflitos, olhos cheios de água. O que havia de errado? Voltamos com o resultado e só aí ela realmente achou que eu estava fazendo uma insuficiência placentária. E o líquido estava diminuindo. Sendo assim ela achou melhor não arriscar e marcou uma cesárea quando ainda estávamos entrando na 38ª semana. E o parto normal que tanto desejamos? Não foi possível. Tudo bem, aquela altura eu só desejava minha filha saudável, não importava como isso se daria...

Então, dia 1º de agosto chegamos bem cedo ao hospital, às 6 da manhã e demos entrada na internação. Ainda não tinha caído a ficha, eu estava calma e serena. Minha mãe o tempo todo fazendo carinho e dizendo que tudo daria certo me passava que estava uma pilha de nervos. Marido querendo registrar tudo, rindo o tempo todo, fazendo carinho e dizendo que me amava todo o tempo. Tudo estava perfeito pro dia do nascimento da nossa primeira filha. Até que... chegam com a maca. Foi o tempo de eu deitar nela que tudo se transformou... comecei a ficar nervosa e pensar como seria tudo... me levaram sozinha lá pra dentro, Vini só pôde entrar depois. Assim que cheguei na sala todos bem descontraídos tentavam me deixar calma, conversando comigo e explicando cada procedimento. Ok, eu ainda estava calma, até que a anestesia não pegou. Eu sentia tudo, nenhuma dormência, nem formigamentozinho. O médico chegou a pensar que era medo meu e que eu queria alguma coisa mais forte. Haha. Enfim, ele aplicou a segunda, e demorou um pouco até eu não sentir mais minhas pernas. Daí foi só felicidade. (Ahn?) O aparelho de pressão resolveu não funcionar. Colocaram outro. Também estava ruim. Eu pensava: gente, onde eu estou? num açougue? que p... de hospital é esse que na sala de cirurgia não tem um aparelho de pressão funcionando e que m... de anestesista é esse que a minha médica tem que não verificou isso antes? Isso porque tínhamos pensado bastante em que hospital teríamos e todos diziam: É a melhor opção de Niterói... Como a idéia era o parto ser normal não fazia muito sentido escolher um hospital em outra cidade, como havíamos cogitado. Enfim, o aparelho não funcionou e o anestesista ficou andando de um lado pra outro no corredor, entrando e saindo da sala, pedindo pra circulante arrumar outro e nada. Aí ele diz, meio que sozinho: bem, vou ter que monitorar a pressão pelos sintomas. Aí eu penso, que ótimo! Tento me concentrar pra manter o equilíbrio mas só penso: Só falta eu começar a ter uns enjôos, sono, tremedeira. Certo! Pensamento certo! Comecei a ter ânsia de vômito e a tremer. Rapidamente ele administrou um remédio e melhorei... mas nessa hora eu já estava cansada daquilo tudo, tensa e ao mesmo tempo em total letargia... eu tinha pensamentos confusos, estava achando tudo aquilo uma loucura e ao mesmo tempo mal conseguia falar alguma coisa, perguntar alguma coisa, reclamar de alguma coisa.

Então, chegou a hora de Vini entrar na sala e eu me senti mais segura... lembro que ele conversou um pouco comigo, ficou ali, abraçado, falando coisas boas.... e então o pediatra chamou pra ver a hora de tirar o bebê. Eu estava muito em outro mundo dopada, mas ainda assim consegui ouvir um barulhinho que eu sabia que era meu bebê. Não chorou, deu uns miadinhos pequenos... lembro da médica perguntar se estava ouvindo... vini sumiu e eu não pude mais ouvi-la...depois de um tempo o pediatra voltou e disse que ela estava ótima... E aí, quando olho pro lado tive a maior emoção da minha vida: Vini vinha em minha direção com um embrulhozinho azul, que de longe eu só via o cabelo... quando ele abaixou e a colocou em cima de mim ele disse, com lágrima nos olhos: "Olha quem eu trouxe, amor, pra te ver! Ela é linda!" Eu queria abraçar, aconchegar, mas eu mal mexia meus braços, não tinha forças... ela era linda, eu nunca imaginei que pudesse ser tão linda! linda, linda! era a única coisa que me vinha a cabeça, linda! Vini acompanhou todos os procedimentos com ela, peso, medidas, sonda, exame físico e a colocaram na incubadora pra pegar um calorzinho enquanto eu ainda estava na sala. Vini voltou e ficou comigo até eu ser liberada pra ir pro quarto enquanto o resto da família babava nossa pequena na incubadora.

Logo depois que fui pro quarto tudo havia se apagado da minha cabeça e eu só queria saber da bebê. E então ela chegou. E eu pude abraçá-la pela primeira vez. Tudo aquilo foi incrível, é uma sensação única, não consigo transformar em palavras. Como dizia Vinícius, não esse que viveu tudo comigo, o outro, o de Moraes: "Filhos, se não os temos, como sabê-los?" E é exatamente isso! Você pode passar uma vida inteira escutando de relance várias mães falarem isso, ficar grávida e ouvir todo mundo te contando a experiência maravilhosa que é ser mãe, ler relatos, ver com seus próprios olhos, mas ainda assim você não vai saber.

Todo esse êxtase só foi prejudicado pelas condições em que tivemos o bebê. Tudo poderia ter sido muito menos doloroso e muito mais prazeroso pra mim. No pós parto eu senti uma dor infinita, as lágrimas rolavam, eu mal conseguia me mexer. Na primeira vez que tentei ficar de pé eu vi estrelas, nunca antes na vida tinha sonhado que alguma coisa doesse tanto. No primeiro banho eu desmaiei de tanta dor. Sem contar nas dores de cabeça insuportáveis que tive por conta das duas anestesias e que quase me fizeram voltar pro centro cirúrgico. Passei os dois dias no hospital deitada, a base de remédios muito fortes pra dor de cabeça, que me deixaram grogue e sonolenta.

Além disso, foi uma cesárea antes do tempo certo, eu não tive nada de colostro, e minha filha não conseguiu pegar o peito pra estimular. Eu não aceitava a idéia dela ter de tomar os suplementos, mas ela já começava a gritar de fome. O apoio à amamentação foi 0, fomos aconselhados sempre a dar leite artificial pelos profissionais do hospital. Só recebemos apoio a amamentação do pediatra da equipe da minha médica. Enfim, foi tudo muito traumático e nem de longe eu recomendo aquele hospital.

Assim que chegamos em casa meu marido só dizia que tinha sido uma emoção única e que queria ter outro filho. E eu ficava desesperada só de pensar na hipótese. Dizia que jamais teria outro, que tudo tinha sido difícil demais pra mim... aquelas dores estavam me destruindo por dentro, tirando minha vontade de toda e qualquer coisa. Ainda bem que memória de mãe é curta. Hoje, se eu fechar os olhos, as cenas que vem são todas dos momentos bons, da alegria que senti. Isso porque a felicidade que ela trouxe é infinitamente maior que toda dor que existe no mundo. Depois de um tempo todas as dores passaram... mas o amor que eu trouxe pra casa não vai passar nunca, é amor de mãe, é amor eterno.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tempo, mano velho.

Por papaizuco.

Relógios. Eu os odiava. Não conseguia entender a tara de algumas pessoas nesse aparelhinho maquiavélico que fica ali, grudado no seu pulso como um carrapato, sugando , silenciosamente, algo tão precioso quanto o sangue. Bem, essa era a minha sensação quando lembrava de consultá-lo. Era sempre:

_Caraca! Já?! Mas pra onde foram minhas horas?

Entretanto, hoje somos pais, e a essa altura, caros amigos, todos já sacaram q ser pai é rever conceitos a todo instante. Assim, não foi espanto nenhum para mim qd, após trocar uma fraldinha às sete da matina, tive um momento epifânico sobre o tempo. De repente tudo ficou claro, e o relógio deixou de ser o monstro que eu pintava.

Percebi que o problema nessa relação tempo x homem está exclusivamente em nós. Alguns podem pensar q, na verdade, ele, deidade poderosa e prepotente, passa por cima da gente como se não fossemos nada. Não! De fato, nós é q damos uma banana para o coitado e tocamos a vida como se o pobre não existisse. Nós somos os arrogantes na história. Nós é q nos julgamos senhores da situação, mestres, e ele o escravo.

Pois sim! Piração total! No entanto, quando a razão decide dar o ar da graça e buscamos a única referência capaz de demonstrar quanto durou tal devaneio (o bendito relógio), vixi! Já era! Tarde demais!

Eis a chave da questão: referência. O relógio, o calendário, o sol, a lua, todos são ótimas formas de percebermos a passagem, mas de um jeito muito pontual. Ninguém é doido o bastante para ficar encarando o relógio de cinco em cinco minutos pra ter a certeza de que horas são. É natural abstrairmos em favor da continuidade saudável do nosso sagrado cotidiano. Talvez se inventassem uma referência melhor, constante, e q, na mesma cajadada, servisse para nos incentivar a viver com maior intensidade ao invés de nos transformar em loucos paranóicos, nosso relacionamento com o velho mano seria bem mais bonito.

E há...filhos. A não ser, é claro, que vc faça o estilão Adam Sandler em Click, e precise de um controle remoto para ver aquilo q perdeu.

Do momento em q descobrir a gravidez de sua amada, o tempo passará a ser algo quase tangível. Entre as ultrassonografias, meses e dias se combinarão para se tornar uma imagem mental viva, real, na qual viajará toda a noite, ao olhar para aquela barriga agitada, a fim de imaginar como ela estaria naquele momento . Serão os quadros no filme do desenvolvimento do seu bebê.

Quando o médico marcar o dia e a hora do parto, aqueles números passarão a ser sua meta de ouro. Serão as balizas e a rede. Você tentará fazer de tudo para q tudo esteja pronto naquele prazo vital...e, provavelmente, fracassará...feio. (Não fique triste com isso...muita cobrança só serve pra te deixar dodói). Ao acordar (se conseguir dormir), na manhã daquela data, sentirá os segundos em perfeita sincronia com a sua pulsação. Imagino que, se houver algo para comparar, pareça com os instantes que antecedem a decolagem para um astronauta.

E então...ela vem. Aquela hora ficará congelada. Eternamente. É a hora do fim de tudo o q havia. Quandos os ponteiros voltarem a correr, o farão para marcar um novo tempo. O universo recomeça pra você. Seu chorinho será o despertador que o sacudirá para sair do transe extasiado.

Não vai demorar para que perceba as leis fundamentais da física desa nova realidade. Quando ela escolher a melhor posição no seu colo; quando encará-lo com olhos analíticos; quando usar a voz e se encantar; quando sorrir ao te perceber...verá que o tempo é dela agora. E mais. Verá que o tempo é ela! Os dias e as descobertas caminharão juntos diante de ti. Cada mês terá, de fato, a intensidade esperada em 30 dias de vida pura! Ela vai se desenvolver numa velocidade espantosa, e, de quebra, mostrará o valor de cada dia...o quanto se pode viver em 24 horas.

_E em mim? Até quando ficarei parado? Será que não tenho mais pra onde ir? Pra onde crescer? Eu estou vivo! Eu posso ser melhor! Por mim e por ela!!! Tempo, mano velho, não precisa parar...eu vou te alcançar!

E assim será, pois quando o teto parecer interessante demais e a baba começar a escorrer pelo seu queixo, ela vai chorar para chamar sua atenção. Esticará os braços com um mordedor em uma das mãozinhas, e, mesmo sem falar (ainda), te pedirá um abraço.

_Um abraço...como é que pode? Ela não era ninguém...e agora pede abraços?

Você sabe como. Você viu como. São 6 meses de vida q te chamam pra brincar. Que direito tem de ficar parado? O exemplo está aí. A referência está aí. Viva!!!!


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Gravidez


Como relatar uma gravidez inteira? Não sei. Foi tão intensa, tão cheia de momentos marcantes, tanta dor, tanto amor, eu seria incapaz de transformar tudo que vivemos em palavras.
Deixamos pra trás a casa que tínhamos acabado de montar, onde éramos só nós dois... deixamos tbm minha família que mora toda lá e nosso novo trabalho. Fomos nos dedicar ao nosso bebê.
À medida que o tempo passava os sintomas apareciam e me sentia mais grávida a cada hora que passava. Gente, que doideira esse negócio de gravidez, heim??? Foram muitos meses de muito sono, indisposição, cólicas, dores na coluna, corpo pesado, irritação, falta de ar, sustos, choro, muito choro, cansaço e mais cansaço.
Antes que alguém leia isso aqui e logo depois desista de ser mãe, vou logo dizendo: tudo isso dá e passa. Porquê tem outros momentos. Muito melhores.
Nós curtimos ao máximo esses meses. Saímos o quanto deu, nos divertimos ao máximo, curtimos a barriga ao extremo, morri de amores pela minha pancinha, eu e amor ficamos mais unidos, nos sentimos mais completos, descobri que sou forte (muito forte), que pela minha filha faço qualquer sacrifício (especialmente os impostos pela médica).... a família tbm se uniu ainda mais, recebemos muito carinho, curtimos comprar as primeiras roupinhas e imaginar como ficaria na nossa bebê, pensamos em cada detalhe do seu quartinho, tivemos dúvidas, muitas dúvidas... Carrinho rosa ou preto? Esse berço ou o outro? E a cômoda? E o papel de parede? Pareciam dúvidas de vida ou morte. Enfim, fomos muito felizes.
Durante muitos meses vivemos em função de e para o nosso bebezinho... foi um caminho longo, com muitas curvas (acentuadas, rs), mas um caminho com muito amor... e ansiedade pra conhecer o rostinho lindo da nossa bebezinha.



P.s. Marido fez uns relatos e reflexões na época da gravidez. Ele é super ultra mega bom nessa arte de transformar em palavras o que vivemos. Para ler é só descer um pouquinho.

Descoberta da gravidez - Parte II

*Se você ainda não sabe como tudo começou leia aqui.



_ Amor, tô grávida!
_ Mentira.
_ Sério!
_ Pára de zoar amor. O assunto é sério. Fala logo.
_ Sério, tô grávida. Toma. Vê só.
E a pessoa aqui corre pro quarto e entra em desespero. E o tratamento? Os remédios que tô tomando?????? Não podia ter engravidado. Pode fazer mal pro bebê! E agora??? Eu choro, choro e choro mais um pouquinho e marido tenta me acalmar, meio confuso. Alguns minutos depois, já mais calma, nos olhamos e começamos a rir, chorar, se abraçar, tudoaomesmotempo, felizes...
_ Amor, tô grávida! vamos ter um bebezinho! que lindo! que emoção! todos choram.
Depois de contar pra todo mundo que estava por perto fomos pro circo (com todo mundo que estava por perto) comer algodão doce, pizza, pipoca e terminamos a noite comendo hamburguer. Que início de gravidez mais saudável!
Bem, passada a euforia inicial, veio a euforia pós inicial...hahaha, que sem graça. Enfim, precisávamos de um médico, saber né, a quantas andava essa história de gravidez. And...... surprise! Não tinha um único médico com vaga nos próximos três meses nessa porcaria maravilhosa cidade.
Pra piorar, eu começo a sentir umas cólicas. Fraquinhas. Mas aí ficaram mais fortes. E mais intensas. Aí resolvemos ir na emergência ver se conseguíamos um pedido de USG e ver se estava tudo bem com o baby. Conseguimos, fizemos. Fomos eu, papai e vovó. Médica pergunta " E então, grávida de quanto tempo?" Enquanto ela passava gelzinho e procurava alguma coisa na minha barriga, respondo. "É.... então... não fomos ao médico ainda, senti umas cólicas e ficamos muito preocupados...descobrimos essa semana que eu estava grávida! " Ela: bem grávida eu diria! 10 semanas! Ana Paula começa a fazer as contas de qts meses ela vinha vivendo na ignorância de não saber que seria mamãe, mas os pensamentos sumiram quando de repente fica muito claro um bebê L-I-N-D-O na tv. Gente, que emoção!!! Eu chorava de um lado, Vinícius de outro e no meio minha mãe só ria. Resultadoe m mãos vamos voltar a busca por um médico.
Ok. Cidade pequena é ruim, mas é bom. Sempre tem uma tia que conhece a secretária do médico pra falar com ele e conseguir uma última consulta a noite, quase dez da noite.
Fomos felizes com a foto do nosso bebê USG (que todo mundo já tinha visto) em mãos. E então, depois de uma hora de consulta e anamnese ele diz: esse tempo todo eu estava aqui pensando o que eu falaria a vocês, que conselho eu daria, e decidi por este -------->Vocês não tem condições de ter esse bebê aqui em Araruama. Nem de fazer o pré-natal aqui. Procurem um médico em Niterói, já que vocês vieram de lá (tínhamos nos mudado pra Araruama há menos de 2 meses, entregado nosso apto, e com casa nova aqui) e têm condições de voltar pra lá, esse é melhor caminho, mais seguro. Sua gravidez pode se tornar de risco se sua tireóide descompensar e além do mais sua pressão está um pouco acima do esperado. Aqui não tem UTI neonatal, nem endocrinologista especializado, nem NADA pra um parto de emergência. Ah, e recomendo que vocês desmarquem o cruzeiro do mês que vem e que a grávida fique de repouso.
Oi? Cadê aquela euforia inicial e pós inicial?
Desespero total - na minha família, claro - porque eu continuava calma, serena e sem acreditar que alguma daquelas coisas pudesse mesmo acontecer comigo.
Mas né, depois de mais umas cólicas e um pequeno sangramento resolvemos ir embora de volta de novo logo daqui. E fomos parar na casa da sogra.
E então começa tudo.

Um novo tempo!

Bem, turma...como puderam notar, as coisas mudaram um pouquinho por aqui (rs). Mamãezica e eu decidimos unir forças pra trazer mais atividade para esse cantinho. Nosso plano agora é maior. Dividiremos nossas histórias com vcs, e, ao mesmo tempo, tentaremos construir uma cápsula para o futuro, um baú de de lembranças para a nossa princesinha. Esperamos q se divirtam, se emocionem...porque esse filme louco a seguir é vida! Nossa linda e abençoada vida! Nosso amor maior.