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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tempo, mano velho.

Por papaizuco.

Relógios. Eu os odiava. Não conseguia entender a tara de algumas pessoas nesse aparelhinho maquiavélico que fica ali, grudado no seu pulso como um carrapato, sugando , silenciosamente, algo tão precioso quanto o sangue. Bem, essa era a minha sensação quando lembrava de consultá-lo. Era sempre:

_Caraca! Já?! Mas pra onde foram minhas horas?

Entretanto, hoje somos pais, e a essa altura, caros amigos, todos já sacaram q ser pai é rever conceitos a todo instante. Assim, não foi espanto nenhum para mim qd, após trocar uma fraldinha às sete da matina, tive um momento epifânico sobre o tempo. De repente tudo ficou claro, e o relógio deixou de ser o monstro que eu pintava.

Percebi que o problema nessa relação tempo x homem está exclusivamente em nós. Alguns podem pensar q, na verdade, ele, deidade poderosa e prepotente, passa por cima da gente como se não fossemos nada. Não! De fato, nós é q damos uma banana para o coitado e tocamos a vida como se o pobre não existisse. Nós somos os arrogantes na história. Nós é q nos julgamos senhores da situação, mestres, e ele o escravo.

Pois sim! Piração total! No entanto, quando a razão decide dar o ar da graça e buscamos a única referência capaz de demonstrar quanto durou tal devaneio (o bendito relógio), vixi! Já era! Tarde demais!

Eis a chave da questão: referência. O relógio, o calendário, o sol, a lua, todos são ótimas formas de percebermos a passagem, mas de um jeito muito pontual. Ninguém é doido o bastante para ficar encarando o relógio de cinco em cinco minutos pra ter a certeza de que horas são. É natural abstrairmos em favor da continuidade saudável do nosso sagrado cotidiano. Talvez se inventassem uma referência melhor, constante, e q, na mesma cajadada, servisse para nos incentivar a viver com maior intensidade ao invés de nos transformar em loucos paranóicos, nosso relacionamento com o velho mano seria bem mais bonito.

E há...filhos. A não ser, é claro, que vc faça o estilão Adam Sandler em Click, e precise de um controle remoto para ver aquilo q perdeu.

Do momento em q descobrir a gravidez de sua amada, o tempo passará a ser algo quase tangível. Entre as ultrassonografias, meses e dias se combinarão para se tornar uma imagem mental viva, real, na qual viajará toda a noite, ao olhar para aquela barriga agitada, a fim de imaginar como ela estaria naquele momento . Serão os quadros no filme do desenvolvimento do seu bebê.

Quando o médico marcar o dia e a hora do parto, aqueles números passarão a ser sua meta de ouro. Serão as balizas e a rede. Você tentará fazer de tudo para q tudo esteja pronto naquele prazo vital...e, provavelmente, fracassará...feio. (Não fique triste com isso...muita cobrança só serve pra te deixar dodói). Ao acordar (se conseguir dormir), na manhã daquela data, sentirá os segundos em perfeita sincronia com a sua pulsação. Imagino que, se houver algo para comparar, pareça com os instantes que antecedem a decolagem para um astronauta.

E então...ela vem. Aquela hora ficará congelada. Eternamente. É a hora do fim de tudo o q havia. Quandos os ponteiros voltarem a correr, o farão para marcar um novo tempo. O universo recomeça pra você. Seu chorinho será o despertador que o sacudirá para sair do transe extasiado.

Não vai demorar para que perceba as leis fundamentais da física desa nova realidade. Quando ela escolher a melhor posição no seu colo; quando encará-lo com olhos analíticos; quando usar a voz e se encantar; quando sorrir ao te perceber...verá que o tempo é dela agora. E mais. Verá que o tempo é ela! Os dias e as descobertas caminharão juntos diante de ti. Cada mês terá, de fato, a intensidade esperada em 30 dias de vida pura! Ela vai se desenvolver numa velocidade espantosa, e, de quebra, mostrará o valor de cada dia...o quanto se pode viver em 24 horas.

_E em mim? Até quando ficarei parado? Será que não tenho mais pra onde ir? Pra onde crescer? Eu estou vivo! Eu posso ser melhor! Por mim e por ela!!! Tempo, mano velho, não precisa parar...eu vou te alcançar!

E assim será, pois quando o teto parecer interessante demais e a baba começar a escorrer pelo seu queixo, ela vai chorar para chamar sua atenção. Esticará os braços com um mordedor em uma das mãozinhas, e, mesmo sem falar (ainda), te pedirá um abraço.

_Um abraço...como é que pode? Ela não era ninguém...e agora pede abraços?

Você sabe como. Você viu como. São 6 meses de vida q te chamam pra brincar. Que direito tem de ficar parado? O exemplo está aí. A referência está aí. Viva!!!!


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