Páginas

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O nascimento

por papaizuco


Parte 1 - O caso da cacatua.

Nos últimos meses da nossa gravidez, toda vez que pensava no dia do parto, uma súplica saltava da minha cabeça de imediato:

_ Por favor, Deus, não me deixe fazer algo idiota.

Conhecendo-me como ninguém, tinha a certeza de que a lista de temíveis vinicices era imensa e criativa. De desaprender a dirigir no percurso para o hospital até a clássica desmaiada na hora H...tudo era possível. Acompanhar o nascimento do bebê errado? Também era uma hipótese. Não riam. Esse medo todo não era uma nóia injustificada. De fato, sou meio atrapalhado, e, se numa típica situação de tensão onde a adrenalina corre a mil pelo corpo a probabilidade de erro crítico já é altíssima, imagine no grande dia.

Eu não queria falhar. Não queria deixar de estar ao lado do meu amor quando nossa bebê chegasse. Nós passamos por tantas coisas juntos desde que nos conhecemos... e sempre sempre encaramos tudo de mãos dadas. Lutando um pelo outro. Doando força e carinho. Os nove meses à espera de Valentina foram tão lindos, e ao mesmo tempo tão difíceis. No entanto haviamos chegado àquele dia vitoriosos muito graças ao nosso companheirismo. Não seria agora que eu estragaria tudo...né?

Quando Ana estava na maca rumando para a sala de parto, lembro de ter respirado com um certo alivio, pelo menos por conta de não ter cometido nenhuma gafe. Parecia que tudo estava correndo conforme o plano e que bastaria segurar na mão dela para vivermos o momento mais bonito das nossas vidas, igualzinho igualzinho acontece no cinema. Mas...

_Papai, o senhor vai encontrar com a mãezinha depois. Primeiro terá que comprar a roupa e trocar no vestiário. Daí então ficará aguardando na sala de espera até ser chamado?

_Hein? Comprar roupa?! Mas onde???

_É lá na recepção no primeiro andar...mas olha, corre!

Jesus! Sai na batida do bonde sem freio descendo as escadas do hospital. Àquela altura, nem lembrava do meu joelho ferrado...eu só não podia falhar. Comprei a tal roupa e subi novamente os lances de escada num fôlego só, e passei a procurar a sala de espera e o vestiário. Não foi difícil. Mais uma vez respirei tranquilo. Não havia passado nem 5 minutos..."eu vou conseguir, é só apertar a campainha".

Não preciso dizer que ninguém atendeu a porcaria da campainha, né? Eu passava a mão na testa e olhava para os lado buscando algum socorro, mas era incrível! Justamente nessa hora o lugar decidiu virar um deserto! Avaliei minhas opções:

1) Chorar feito uma moça;

2) Gritar feito uma moça;

3) Sair apertando tudo o que era campainha pra ver se alguém me ajudava.

Ok...a 3 era mais digna. Graças a Deus foi de primeira. Uma enfermeira gente boa apareceu pra me dizer que realmente havia um defeito naquela outra campainha, mas que já abriria a porta.

Entrei no vestiário louco! Minha troca foi um autêntico pit stop. Antes de sair dei uma olhadinha num espelhinho pra ver como ficava de médico. "Sabia, George Clooney".

Para minha surpresa, disseram-me que ainda não poderia ir para a sala de cirurgia. Fiquei feliz com isso...afinal, precisava relaxar um pouco antes de ver Ana. Eu tinha que ter olhos tranquilos e confiantes para ela. Assim, sentei naquela salinha agradável. Havia um balcão com coisinnhas pra comer, a cafeteira tradicional, uma tv, revista e jornais, e claro...médicos a dar com o pau.

Não demorou nada para perceber que abstrair seria impossível. Tentei de tudo...olhar para o chão, ler, ver televisão, entretanto nada era capaz de baixar a adrenalina. Ao contrário, piorava! Por exemplo: na tv passava Patati e Patata (aliás, foi quando descobri que eles tinham um programa). Aqueles palhaços esganiçados...aquele cenário colorido...nossa!! Me dava uma vontade louca de dar com a cabeça na parede!!!

Foi quando apareceu...a Cacatua.

Um dos tais médicos chegou e já foi atraindo a atenção de todos. Parecia ser um sujeito legal para se bater papo tomando cerveja...cheio de histórias e brincadeiras. Conversou com todo mundo ali sobre todos os assuntos da pauta do dia. Eu o olhava sem acreditar. Como ele conseguia ficar tranquilo antes de ajudar alguém a parir? Aos poucos aquela simpatia começou a incomodar, e eu gritava por dentro: "Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!"

Quando parecia que os assuntos tinham se esgotado, o danado me saiu com a seguinte pérola:

_Rapaz, ontem apareceu uma cacatua lá em casa.

Aquilo me deu um ódio inexplicável!!! Como?!?! Eu estava a instantes de viver o momento mais lindo da minha vida e um cara me fica falando de cacatuas?!?! Por que ele não falava sobre o amor incondicional? Sobre o valor da vida?! Sobre as belezas de ser pai?!? Sobre a mágica de ver uma criança chegar no mundo??

Não!!!!!!! Cacatua, não!!!!!

Levantei e perguntei para uma enfermeira se já estava na hora...se não esqueceram de mim, e ela me pediu para aguardar só mais um pouco na salinha.

Não teve jeito. Voltei e, por mais que tenha cantarolado alguma bobagem, as palavras do doutor natureza invadiam meus ouvidos. Contou então:

_ Mas veja, só. A bichinha era linda. Branquinha. Educada. Todo mundo ficou doido nela. Minha filha, então...Ela me pediu pra ficar com a bichinha, mas eu disse que só se o dono não aparecesse.

De repente, a raiva virou um riso disfarçado. Fiquei pensando na situação toda, em toda a correria, em todo o nevosismo para nada dar errado...e tudo acabava assim, num papo descontraido entre médicos sobre um piriquito albino metido a besta.

Paciência e calma. Talvez aquela fosse uma última lição de Deus para mim antes da chegada do meu bebê. Talvez fosse Ele me dizendo para reconhecer definitivamente que o mundo não é meu. Que as coisas, de vez em quando, fogem mesmo do controle, mas que não preciso me desesperar por isso. A hora chegaria quando tivesse de chegar, e tudo correria bem, lá fora e dentro de mim, se eu mantivesse a fé, leveza e bom humor.

Ainda pude ouvir o doutor natureza dizer:

_Bem, não tinha jeito, né? O rapaz era mesmo o dono da cacatua. Nós devolvemos, mas minha filha ficou triste demais.

_Tadinha. Dá uma pra ela de aniversário.

_Nada. Saimos na mesma tarde pra comprar uma igualzinha. Ela ficou radiante.

Sorri. Poucos minutos depois vieram me chamar. Nossa hora havia chegado.


Nenhum comentário:

Postar um comentário